As lembranças de 1932 por Dona Lygia

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No alto de seus 95 anos de idade, Dona Lygia Siqueira Corradi, continua firme, forte e com uma saúde de ferro. Essa senhora que no alto de toda sua lucidez lembra com exatidão de passagens que aconteceram durante sua vida, mais precisamente sobre o intervalo em que era apenas uma criança de nove anos. Nessa época ela acompanhou perfeitamente os combates que aconteceram em terras mineiras durante a ‘Revolução de 1932’.
Ela conta que por ser de família de militares, durante o período em que o levante daquela guerra civil foi dado, alguns oficiais e soldados do exercito mineiro, estavam se abrigando em sua casa, pois o pai, Urbano Lopes de Siqueira, queria dar todo apoio possível para que as forças revolucionárias paulistas, não tivessem êxito no que queriam, que era derrubar o governo mineiro, que tinha apoio de outros dois estados brasileiros, Rio Grande do Sul e Paraíba.
“Me lembro como se fosse hoje, aquela farmácia aqui em frente (mostrando o local onde hoje tem uma farmácia bem em frente a sua residência) era um armazém onde todos faziam suas compras ou trocas de mercadorias, ele foi cedido para as forças militares fazer um hospital de campo para os soldados. Pois o hospital não tinha condições de oferecer leitos para todos feridos. Então os casos mais graves iam para lá e conforme iam se recuperando eram trazidos para esse galpão para se reestabelecerem e alguns ainda voltam para o combate” lembra dona Lygia.
A recordação que tem não entra muito nos detalhes, mas diz que mesmo durante todo o período do embate ela não presenciou nenhum batalha pelas ruas da pequenina Jacutinga, que apesar de já estar emancipada administrativamente, ainda era um pequeno vilarejo, mas muito importante, por ser a entrada de Minas Gerais para os paulista. Tanto que nesse período todas as fronteiras terrestre com os municípios paulistas foram fechadas e continham homens de prontidão para evitar qualquer surpresa.
Naqueles quase três meses de batalha, até uma característico som que ecoava todos dias foi abafado, não se ouvia mais aquele apito tradicional da ‘Maria Fumaça’ que vinha de São Paulo. “Logo quando escurecia ouvíamos um pequeno barulho e mesmo sem ter o apito, já sabíamos que era trem chegando devagar e de forma sorrateira, com aquele chiado triste. Dentro ele trazia os corpos de quem tombou durante o embate e os feridos para receberem tratamento aqui. Os soldados passavam avisando antes que era para fecharmos as portas e janelas, para que as famílias não vissem os mortos e feridos. Aquilo ficou na memória, a gente o chamava de trem da morte” recorda.
Sobre uma recordação que ela conta e se lembra com emoção, o que fica evidente quando ela cantarola parte da canção, era quando os militares se reuniam em frente ao galpão onde estavam alojados e durante as noites, rodeados a uma fogueira cantavam a canção Rancho Fundo, hoje um grande sucesso, mas que na época era conhecido pela voz da grande cantora Elisa Sanchez, que havia gravado a composição um ano antes, com nome de ‘Na Grota Funda’. “Entre todas as lembranças que tenho, essa é que guardo com mais apreço, pois toda que lembro desses dias, essa música ressoa nos meus ouvidos e me faz voltar para aqueles fins de tarde. Com a família reunida junto com os soldados e apesar do clima hostil pelas batalhas, o respeito imperava entre todos” diz a senhora que essas horas da entrevista estava com óculos escuros, mas era notório que seus olhos estavam marejados por recordar de dias da sua infância, que tanto bem a fizeram.

Depois da Revolução
Passado o período em que as terras de Jacutinga foram palcos de algumas batalhas, dona Lygia seguiu a vida ao lado de familiares, se casou com um oficial da policia militar e teve um casal de filhos. Mas ainda muito jovem logo após o nascimento da sua filha, perdeu seu esposa e teve de cuidar da família sozinha. Nesse período então seu pai a chamou para voltar para sua casa, onde ela cuidaria da sua mãe, e ele daria as condições para que seus filhos crescessem.
“Não posso dizer que foi um período difícil, mas se não fosse o papai nos acolher garanto que passaríamos por momentos não tão bons. Cuidei da mamãe durante o período que ela adoeceu e o papai ajudava na educação dos meus filhos. Devo quase tudo a eles, hoje eles estão bem formados e cada um com sua família” conta ela sobre sua família.
Ela continuou em Jacutinga, onde a família tinha um grande pedaço de terra, onde ficou com uma parte significativa e a outra parte foi vendida a algum tempo atrás. Ela ainda mantém um pequeno sitio as margens da MG-290, onde cultiva seus pés de café, “ali eu tinha mais de 40 mil pés, mas o tempo foi passando e eu fui cansando, e não faço nenhum investimento lá, então toda produção tem que ao menos dar para manter meu hobby. O ano passado não colhi quase nada, esse ano melhorou um pouco, mas o preço ainda está bem abaixo do que já pago antes” diz ela, completando logo em seguida “para a próxima safra estou pensando em plantar mais alguns pés de café para ver se consigo aumentar um pouquinho a renda”.
Enquanto nos levava para sua cozinha, onde partilhamos um café que veio diretamente do seu sitio, ela conta aos risos “meus filhos querem que eu venda a fazenda, mas vou vender ela para quê? Para depois ficar enfurnada dentro de casa. Eu gosto muito de ir lá, sempre que possível estou passando lá, para colocar o pé na terra” brincou.
Mesmo com o passar dos anos, dona Lygia se manteve firme nas sua atividades semanais como ir à missa, por exemplo. Hoje o que mais gosta e de sentar no banco e contar as histórias de sua vida. Sejam para os mais novos que apenas tem interesse em saber de passagens do passado, seja para jornalistas como nós, que nos interessamos por uma história tão rica e cheia de detalhes ou simplesmente partilhar com os amigos sua grande vivência.
Dona Lygia é mais uma “Gente que Faz” por Jacutinga. Ela fez muito e continua a fazer simplesmente por ser voz da história nos dias atuais, aprender com um livro histórico é bom, mas ouvir diretamente da boca de quem viveu episódios tão importante, é sensacional. Obrigado Dona Lygia por passar algumas horas conosco.

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3 comentários

  1. Tive o prazer de conhecer a Dona Lígia há muitos anos nos tempos que vivi em Jacutinga de 1986 a 1989, na época da Faculdade, uma pessoa maravilhosa, pena que não vejo há muitos anos.

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